Disfarçando o máximo que podia, sem olhar pro beiço brilhoso do moço, perguntei se ele conhecia a região.Onde nós iríamos era perto da colónia de ferias de um certo banco e de uma usina de reciclagem de uma fábrica de refrigerantes. O Gloss man afirmou que conhecia e após resgatar meu filho e amiga entramos no táxi. Fui sentado na frente, minha amiga atrás e meu filho cochilando ai lado dela.Mal o motorista arrancou ela começa a falar da mulher que a atendeu mal na barraquinha de comidas e que estava deixando as pessoas passarem na sua frente e que por pouco não deu uns safanões nela, e blá, blá blá, até perceber que o caminho por onde íamos estava diferente...
-Esse caminho tá errado hein?! falou em meio a outros blá, blá blas...
Bem, aqui preciso admitir que tenho o senso de direção igual a de uma girafa bêbada especialmente se tem alguém que sabe o caminho.Dai eu abstraio, distraio, multiplico, no melhor estilo "Dónde estoy, quién soy yo" isso é de lei.
O motorista parou o carro numa encruzilhada sinistra e falou assim:
- Ó aqui fica a colônia de férias do Banco que vocês falaram, é aqui mermo!
Eu completei...
-Amigo a colónia de férias aqui é do Banco do Brasil, a que procuramos é do Banestes (Banco do estado do ES), além do que, fica perto de uma usina de reciclagem , então nem uma coisa nem outra...
Nessa hora o sr. lábios reluzentes ficou meio puto e disse mas onde é então?!
-Olha fica perto da rodoviária que ficou pra trás um tempão? disse minha amiga ainda contando sua história pra mim...
Volta o moço em direção a rodoviária. Chegando lá, cheio de certeza (?) aponto pra ele:
-É aliii óoo ha ha ha que distraidos, conversando nem prestamos atenção ha ha ha !
O cara entrou por ali, rodou, rodou rodou e nada de achar o ponto de referência.
Minha amiga dos pés quase gangrenados e de saco cheio resolve perguntar pro Gloss Man algo fatídico (pra ela).
-Meu filhoam vocêam é daquieam? (no melhor carioquês)
Resposta completamente inapropriada:
-Não! (simples assim)
- Ihh Fudeu!(sic) retruca ela e eu quase pulo pra trás pra cobrir os ouvidos de meu filho, pois sabia que de onde saiu esse fudeu outras palavrinhas da mesma família iriam escapar...
O pior e o mais engraçado veio a seguir:
-Eu tinha bebido não sei quantos goles de vinho de jaboticaba (especialidade da região) e estava como direi... feliz! nesse momento percebi que não podia olhar para o perfil do moço por que o brilho labial faiscava, inclusive fora do contorno da boca.
Quando ele nervoso falava comigo eu respondia olhando pra frente, doido pra dar uma sonora gargalhada. Minha amiga é apavorada com assaltos e afins.Na cabeça dela uma historinha policial se formou em questão de minutos. Comecei a sentir uns cutucões nas minhas costas pelo banco de trás, era ela tentando um tipo de código-morse-do-crioulo-doido, que me dava mais vontade de rir especialmente quando percebi que na cabeça dela estávamos sendo raptados, e seriamos levados para alguma croca e mortos após a família óbviamente negar o resgate...
Num determinado momento, no meio de uma estrada não muito clara, o motorista para o carro e mexe no bolso.
Levei nessa hora o maior dos cutucões.Cheguei a pular! enquanto ele falava ao telefone ela sussurrou ao meu ouvido:
- Xiii lascou de vez! ele vai chamar os cúmplices que estão aguardando nesse ponto aqui pra desovar a gente!
Nesse momento não segurei riso.Olhando para aqueles lábios e o tamanho hobit do taxista não conseguiria nunca imaginar o que a mente dela arquitetou.Tive uma crise de riso incontida.
O rapaz puto da vida, havia simplesmente ligado para um colega perguntando a localização de onde estávamos e pra onde deveríamos ir...
Resolvido o problema. Chegamos finalmente na subida do sitio e avistamos a casa no topo da ladeira com a lua por detrás das árvores. Cenário pra Hitchcock nenhum botar defeito.Se eu fosse o taxista nem retocaria o Gloss. Deixaria rapidim aqueles passageiros nonsense por alí antes que alguma *velhinha A la Psicose descesse correndo pra pagar a conta...
Se Fagner estivesse naquele taxi teria se divertido muito mais do que naquele palco frio e sem graça, ah! brilho não faltaria isso eu garanto.
* Norman Bates me assusta mais "a paisana" do que fantasiado de mãe dele.


